poeminha ordinário resgatado de um arquivo corrompido

minha família é real
mas também imaginária

minhas ideias centrais
são todas da marginália

meus amigos todos são
imaginários
reais
inimagináveis
de tão legais

gênia

bebi todo o teu vinho
sem me importar
com a uva 
ou com a safra
chega pra lá
nessa cama
uma mulher
não cabe
numa garrafa

tu fica aí te ensebando
se harmoniza com cabernet sauvignon
eu quero saber onde eu coloco
minha coleção de batom
ou se nessa cama cabe
aquele meu velho edredon

eu quero o menu completo
pra casar com as minhas vontades
não me vem com mimimi
que eu tô cheia de maldade

num livro de expressões idiomáticas
daria pra fazer casamentos
da ordem da invencionática

juntar, por exemplo, 
o mato sem cachorro
com o cão sem dono
só pelo prazer
de fazer-se encontrar
num universo perfeito
o estar perdido
com o abandono

botar no mesmo saco
a engolidora de sapo
com a soltadora de franga
pra que uma ensinasse à outra
que carta fora do baralho
poderia estar na manga

a minha fome é sincera
quando diz:
não faça guerra,
faça um xis!

a utilidade da coisa nenhuma

o chacoalhar da vida
me enterte
qualquer coisa besta
me diverte
passo longas horas
na internete
mas a atividade
que mais me apraz
é aquela que se faz
quando se está inerte

em dias de chuva,
embarrarina
da perna suja,
mas longe de fina.

um raro momento doméstico

enquanto eu faço
do meu cansaço
dedicação 
à minha e à tua fome
à beira do fogão
tudo o que espero
em troca
do meu esmero
é um olhar sincero
de cumplicidade
e um abraço
daqueles que chegam de surpresa
e que logo vão, deixando saudade
mas eis que furtivamente
sem sequer que eu perceba
me levas pedaços da janta
toda vez que vens e me beijas

valdirene

era professora da escolinha dominical
virou contorsionista sensacional
bailarina burlesca sensual
equilibrista do circo especial

fez uma enorme racha na saia de ir pra igreja
e foi dançar um tango e beber cerveja

era bela, recatada e do lar,
mas resolveu se deseducar
quando criança lhe diziam:
– menina, fecha as pernas!
agora ela quer bailar como marietta baderna
diziam-lhe sobre a importância da postura e do recato
diziam-lhe para cuidar com suas roupas e sua boca
agora ela não aceita nenhum desacato,
e em meio a uma sociedade hipócrita e louca,
abre bem as pernas em um lindo espacato!

(Para a galera do Duo Dança, onde sentir-se poderosa é mais importante do que qualquer uniformidade em cor-de-rosa. <3)

sentimental

tua camiseta no varal
inerte, cabisbaixa,
lembrou uma coisa tua
que eu queria muito poder abraçar agora
algo de frágil e belo
algo de humano e lindo
uma melancolia leve e profunda ao mesmo tempo

recolhi-a
abracei-a
deitei com ela de conchinha na cama
e se ela tivesse ouvidos
para ela falaria de amor

saí de casa para estudar
na biblioteca
levei na mochila o computador
cheio de fotos tuas
cheio de músicas nossas
filmes e séries que ainda vamos ver juntos

na biblioteca
abri a mochila e tirei
dela o computador
máquina de guardar memórias
das viagens à praia
e de poemas que escrevi pra ti

só que eu me esqueci,
vejam só
de trazer junto o carregador
eu me esqueci de carregar a dor
por crer
que é possível amar sem temer
e que é possível viver sem dor.

(para o Gustavo Passos, um esquecido que inspirou esse poema.)