quando era criança, colecionava palavras que não faziam sentido
parábola
parabólica
paralelepípedo

mas gente cresce
e alguns velhos hábitos se complexificam

hoje coleciono paradoxos

das utilidades domésticas das noites de chuva

dormir de conchinha
escrever
ouvir o barulho da chuva
ficar no escurinho
ler um livro
cantar sem medo de ser ouvido
usar a chuva como desculpa pra ficar mais tempo em casa
usar a chuva como desculpa pra buscar conforto para o corpo:
numa xícara de chá
num café
num banho quentinho
rabiscar num papel
não fazer nada
curtir a poesia do cotidiano

todas as noites
atividade para todas as idades
entrada franca
em qualquer mundo possível
encontro com seres e situações fantásticas

em qualquer canto onde caiba o seu corpo

porque, felizmente,
ainda que só se fale de crise
dormir e sonhar
continua sendo de graça
continua tendo graça
continua sendo
uma das tantas coisas
que ainda nos une
em meio a tantas divergências

passagem livre para mundos outros
lugar seguro para o absurdo

enquanto as pessoa enlouquecem…
com coisas “úteis”
sigamos
com as microutopias
as mini divagações
a poesia do cotidiano

(ainda que para ler no banheiro)

Literatortura

Tomei tylex, dorflex, mioflex,
e nada flexibiliza a minha dor
Queria ser flex,
Prafrentex
Perfex
Mas tô dura
Financeiro e musculatura.
E também literatura
Tortura
Literatortura

Notas sobre o corretor ortográfico em situações ordinárias (ou cretinas… ou ambíguas…)

Deus lhe pague
Deus lhe apague

que maldade,

que covardia!

fui denunciada

por incitação ….

à poesia

É cientificamente comprovado que a poesia…

…esquece!

eu não consigo
dizer
não

pra minha mãe
com um prato na mão

amar a chuva…
é chuvinismo!