Os versos
eu tirei
do saco

…do saco cheio
de vazios que
junto por estas ruas…

ruas desquintaneadas
onde já não há mais cataventos
ou menininhas a brincar de amarelinha
ruas onde marta já não fia mais,
e maria, na janela, não sonha.
há muito deixou de sonhar.

ruas desaçucaradas
de padarias onde os doces já nem enganam
de longe estão azedos
em balcões sem glamour

ruas descaetaneadas
nas quais se diz amar caetano
pra espantar o tédio ou o vazio.

onde o sorvete da esquina
tem fama de coração partido
e já não tem gosto, só nome.
e já não tem nome,
nem glória,
evoca os tesouros,
preciosos minerais,
e atende pelo nome de jóia…

(que pedra tem mais gosto…
…que coração de jibóia!).

festas de aniversário da infância são, às vezes, a melhor metafóra pra vida…

É tanta afobação e tão grande é o desejo de ter tudo, que às vezes acabamos ficando com nada.

E o medo de não provar a torta nos faz derrubar todo o refri nos salgadinhos. E ficar sem refri, nem salgadinhos, nem torta. Porque perdemos tempo ajudando a tia a limpar nossos estragos e a torta se foi…, seguida de comentários das tias do quanto estava bom o recheio de chocolate com nozes e caramelos crocantes.

Perde-se a torta no desejo de tê-la.

E “A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.”
(Drummond)

Poesia de assombração

Os fantasmas daqui de casa
Gostam de brincar de vestir teu nome
Às vezes passeiam pelas ruas
Vestidos de ti
E me assombram.
Quando vejo, à noite,
nas ruas da cidade,
Todos os rostos boêmios
Se confundem com o teu
E não há remédio
Para fantasmagoria
Senão, talvez,
o tempo
E tempo silencia
inquietude de fantasma?

Manhã

O edredon retorcido
É a sensualidade da cama
E só o alinhamos novamente
Por covardia
Receio de voltar a deitar de novo

poeminha de desamor

tua carinha linda
rolo compressor

ta tudo caro
o aluguel ta caro
azinternete ta cara
os chocolates tão caros
(e têm gosto de sabão)
até o amor tem custado meio caro demais…

maldita inflação!

eu sempre ouço
“não se pode ter tudo, taila…”
na voz das coisas mundanas.
hoje foi uma tela serigráfica que me disse isso.
sábia matriz,
de ranhuras difíceis.
arte é imagem pensante.

existe vida pública
e vida privada

existe iniciativa privada
mas de iniciativa pública
eu nunca ouvi falar
você já pensou que lindo seria
a iniciativa popular?

o poder é público,
a iniciativa é privada

isso talvez explique
a merda generalizada

poeminha de vingança ficcional

queria ver o teu rosto
enquadrado
emoldurado
talvez até no jornal
queria, bem na verdade,
ver tua cara estampando
a manchete principal
desde que o assunto fosse
de caráter criminal
queria te ver algemado
na página policial
leria com calma e alegria
enquanto faço um nescau

Haja resistência
Pra emergência da vida
Esse chuveiro queimado,
Essa cobrança indevida

Haja força de espírito
Haja remédio
Pra tanta ferida