Marchinha muito minha:

Eu queria ser
Johnson&Johnson
Só pra lhe dizer
Chega de choradeira

Megapixels
Megalópole
Megabytes
Megawatts
Megatron
Megaoperação
Megafone
Megaman
Megalomania

Microfone
Microsoft
Microempresas
Microrregião
Microinformática
Microondas
Microprocessadores
Microalgas
Microcrédito
Microbiologia
Micronésia

Mega
Micro

Microsensações
em megalópoles

Mega aspirações
em microcélulas

Tão micro
em tão mega
oceanos
de informação

Tão frágil
tão impotente
e assim se (a)ssenta
a solidão

Puxa uma cadeira e senta
A solidão
Puxa o meu tapete e senta
Não diga não
Não diga nunca
Te assenta,
E assola,
Tão sólida, solidão,
Em líquida…
Liquidação.

Chuva torrencial
Ali no litoral
Meu coração chove também.
Escoam, em suas águas,
Barquinhos de papel.
Brincam na minha tristeza
E em cada caraminhola
Um querubim.
Colocam, em meus cabelos,
Um jasmim
E me fazem de Ophelia louca Iemanjá.

No pensamento distante,
Pergunto-me sobre o amor poeta.
“O amor, poeta, é como a cana azeda… a toda boca que não o prova engana.”
E se o amor do poeta me engana,
Entristeço-me com o sabor da cana.

E eu, que neste mundo ainda sonho?
E eu, que tenho coração?
Acordo num mundo medonho
Onde o afeto é uma aberração.

a dinâmica da solidão é um pouco semelhante ao funcionamento das coisas no espaço:

nos alimentamos da escuridão, como na morte de uma estrela.

e a escuridão é densa, tão densa que nada pode escapar dela. nem mesmo a luz.

(“se for mais veloz que a luz, então escapo da tristeza…”: droga, já escreveram isso!).

Noites estudantis na Capital

Nas noites frias outonais
Ensaios para a solidão
Em qualquer quarto de aluguel,
Peça, moquifo, pensão.

Nas noites frias outonais
Ensaios para a solidão
São frias as camas sem casais
É tempo de endurecer o coração

E vem chegando as provas trimestrais
É tempo de acender o lampião
E amanhecer, sem mais,…
Escrevendo um poema no meio da equação.

Hehehe
Herege
Hegel
Hegege
Hegelgel

(Até nisso eu erro.)
E o corretor me corrige:
Herege.

Estação dos olhos vendados
Solicito a todos que só vêem cara
Que vejam coração.

Estação Terminal Caos do Porto
Ao desembarcar
Não esqueça que Deus está morto
E que o Mercado agora é Igreja Universal

Estação Terminal Desassossego
Ao desembarcar
Não esqueça seus objetos de apego
Não esqueça mesmo de seus infernos astrais

Estação terminal Desamor
Ao desembarcar
Não esqueça de carregar sua dor
Para com ela decorar o seu lar

Estação Terminal Noite Escura
Ao desembarcar não esqueça de ligar pra criatura
Que contigo compartilha a dor no bar

EstaçãoTerminal Coragem
Solicito a todos
Que desacovardem o coração

Às conversas rasas,
Aos risos frouxos,
Aos passos trôpegos
Que os bares me dão…

As aves raras!
As aves raras!
As aves raras!

Porque eu prefiro,
Aos perfumes baratos,
As ideias claras.
Aos trapos pobres,
As tramas caras

Os versos
eu tirei
do saco

…do saco cheio
de vazios que
junto por estas ruas…

ruas desquintaneadas
onde já não há mais cataventos
ou menininhas a brincar de amarelinha
ruas onde marta já não fia mais,
e maria, na janela, não sonha.
há muito deixou de sonhar.

ruas desaçucaradas
de padarias onde os doces já nem enganam
de longe estão azedos
em balcões sem glamour

ruas descaetaneadas
nas quais se diz amar caetano
pra espantar o tédio ou o vazio.

onde o sorvete da esquina
tem fama de coração partido
e já não tem gosto, só nome.
e já não tem nome,
nem glória,
evoca os tesouros,
preciosos minerais,
e atende pelo nome de jóia…

(que pedra tem mais gosto…
…que coração de jibóia!).