cristal

a bordo de uma lotação
te levo no coração

antes de ir
te cobri
de beijos
e cobertor

te deixei enroladinho
pacotinho humano de saudade e beleza…

e agora, fim do poema
pois se eu perder o ponto
eu vou parar na tristeza

te escrevo todos os dias
e tu sequer me respondes
palavras e mais palavras
sobre quem eu sou,
o que faço,
com quem eu ando,
será que suspeitarias
ao receber
que todas as vezes que escrevo
estou me cagando?
te escrevo todos os dias
mas não mando.

plié chine-collé

eu danço ballet clássico
com visual punkete
misturo impressão a laser 
com gravura em metal

é que minha cabeça é de 2017
mas o meu coração é medieval

enquanto alguns pregam,
parafuso.
que prego entra e sai fácil,
parafuso dá voltas, rodeios,
e dificilmente sai do lugar
firmemente afixado,
cravado,
exatamente onde deve estar
e tudo graças
a cada voltinha que deu.

lina bobagem

queria ser
lina bo bardi
mas bo bardi não posso ser
por hora me contento
em arquitetar bobagens pra você

saindo da zona sul
vejo passar a lotação
muito antes do busão
daria pra chegar antes
daria pra chegar primeiro
mas contenho
impulso e dinheiro
espero o ônibus paciente
porque a janela é maior
e dá pra ver o rio inteiro
sem falar na emoção
de descer a lomba ligeiro

alegria de bobo

é juntar
meu sapato com o teu
só pra ver se assim
eles brincam de escravos de jó

caprichosa

peço um café bem grandão
e tomo bem devagarinho
que é só pela beleza
de te ter mais um pouquinho

não importa que esteja frio
enquanto a cortina
dança a sua graça
de ser um pano mole ao vento
pendurado sobre a janela aberta

ciclope
clonado
é ciclone