valdirene

era professora da escolinha dominical
virou contorsionista sensacional
bailarina burlesca sensual
equilibrista do circo especial

fez uma enorme racha na saia de ir pra igreja
e foi dançar um tango e beber cerveja

era bela, recatada e do lar,
mas resolveu se deseducar
quando criança lhe diziam:
– menina, fecha as pernas!
agora ela quer bailar como marietta baderna
diziam-lhe sobre a importância da postura e do recato
diziam-lhe para cuidar com suas roupas e sua boca
agora ela não aceita nenhum desacato,
e em meio a uma sociedade hipócrita e louca,
abre bem as pernas em um lindo espacato!

(Para a galera do Duo Dança, onde sentir-se poderosa é mais importante do que qualquer uniformidade em cor-de-rosa. <3)

sentimental

tua camiseta no varal
inerte, cabisbaixa,
lembrou uma coisa tua
que eu queria muito poder abraçar agora
algo de frágil e belo
algo de humano e lindo
uma melancolia leve e profunda ao mesmo tempo

recolhi-a
abracei-a
deitei com ela de conchinha na cama
e se ela tivesse ouvidos
para ela falaria de amor

saí de casa para estudar
na biblioteca
levei na mochila o computador
cheio de fotos tuas
cheio de músicas nossas
filmes e séries que ainda vamos ver juntos

na biblioteca
abri a mochila e tirei
dela o computador
máquina de guardar memórias
das viagens à praia
e de poemas que escrevi pra ti

só que eu me esqueci,
vejam só
de trazer junto o carregador
eu me esqueci de carregar a dor
por crer
que é possível amar sem temer
e que é possível viver sem dor.

(para o Gustavo Passos, um esquecido que inspirou esse poema.)

o meu amor me visitou
sem em casa eu estar
abriu as janelas todas
para ventilar
mas meu amor
por favor
não me chames de ingrata
pois na melhor das intenções
tu convidaste os mosquitos
pra me fazer uma serenata

artes dramáticas aplicadas à vida doméstica

cheguei em casa e tu não tava
o coração apertou e quis chorar
chorou, inundou o apartamento
e o vizinho veio reclamar

amorex 10mG

eu preparei com carinho
aquele teu marmitex

eu te mandei um presente
urgente, foi por sedex

fui no bailinho contigo
usando calça suplex

fiz até biju pra ti
com miçanga e elastex

e se inventares de ir embora
me colo em ti com durex

cristal

a bordo de uma lotação
te levo no coração

antes de ir
te cobri
de beijos
e cobertor

te deixei enroladinho
pacotinho humano de saudade e beleza…

e agora, fim do poema
pois se eu perder o ponto
eu vou parar na tristeza

te escrevo todos os dias
e tu sequer me respondes
palavras e mais palavras
sobre quem eu sou,
o que faço,
com quem eu ando,
será que suspeitarias
ao receber
que todas as vezes que escrevo
estou me cagando?
te escrevo todos os dias
mas não mando.

plié chine-collé

eu danço ballet clássico
com visual punkete
misturo impressão a laser 
com gravura em metal

é que minha cabeça é de 2017
mas o meu coração é medieval

enquanto alguns pregam,
parafuso.
que prego entra e sai fácil,
parafuso dá voltas, rodeios,
e dificilmente sai do lugar
firmemente afixado,
cravado,
exatamente onde deve estar
e tudo graças
a cada voltinha que deu.