Há 2 meses eu vivo na cidade que sempre vislumbrei, no bairro que gostei assim que conheci, na rua que eu amei assim que pisei. Árvores cabeludas enfeitam a atmosfera com suas barbichas que caem sobre fios de luz, telhados, sacadas, janelas, orelhões e bancas de revista. O parque mais social da região metropolitana fica a somente uma quadra da minha casa e nós encontramos o apartamento perfeito para montar uma república, porque eu sempre quis morar num lugar como o albergue espanhol (do filme de mesmo nome) ou num lugar como o orfanato Raio de Luz, da novela Chiquititas.
Foi uma saga a nossa busca. O Charles passou em um concurso público em POA, eu e a Carine estudávamos na UFRGS há um ano. Todos nós víamos a necessidade de morar em Porto e estávamos cansados das cidades de origem e sua inércia cultural. Eu e o Charles vimos vários bares em SL abrirem e fecharem suas portas permanentemente, pessoas legais e esforçadas tentarem, tentarem e não conseguirem levar suas propostas culturais adiante. Nas cidades da região metropolitana a gente tem um foco cultural numa cidade em um período de mais ou menos 4 anos e existe uma rotatividade entre elas. NH e SL geralmente são as competidoras mais premiadas com relação a isso, e em especial à vida noturna. Nós mesmos tomamos algumas iniciativas que infelizmente não pudemos levar adiante, como a Lolita’s Rock Party, Exílio Poplítico e o SinosRock, uma agenda online e colaborativa que divulgava as festas da região. A cena foi morrendo e o desânimo cresceu. Eu praticamente não saía mais por São Leopoldo. Outro motivo era a faculdade. Eu passei a priorizar as questões do curso de artes em detrimento da minha vida social. Antigamente a gente saía nas ruas e encontrava mais de 3 conhecidos no caminho de casa até a Independência. Nos últimos meses encontrar pessoas legais pelas esquinas se tornou meio raro. E quando acontecia, era presente o clima de nostalgia e lamento: a situação econômica da cidade, a cena cultural tristíssima e as mazelas da Unisinos.
Era uma necessidade comum. Além disso, eu precisava de espaço. Morar num apê de 40 metros quadrados estava me limitando demais, era deprimente não poder pendurar meus trabalhos em todas as paredes, não ter um canto destinado aos estudos e produção artística, desenhar em papéis pequenos, pintar telas pequenas, podar a necessidade quase existencial de fazer coisas grandes, de ocupar espaços. Nosso critério principal para escolha era, portanto, o espaço. Queríamos, além disso, uma boa localização, boa iluminação e, no mínimo, 2 quartos e um peça para trabalhar. Eu lembro de ter entrado em lugares encantadores, mas que poderiam muito bem servir de cenário para filmes de terror ou suspense, apartamentos em estado de decomposição, apartamentos fofinhos, mas pequenos demais pra nós três e um que ficava ao lado de um bar. Entramos em várias listas de espera, pegamos várias chaves emprestadas e chegamos a visitar 8 apartamentos num dia só. Foram muitas caminhadas, ônibus e corridas de táxi. Outras corridas (minhas) à pé, para entregar as chaves no horário combinado. Imaginamos nossas vidas em cada um daqueles espaços. Lembro-me de ter visitado muitos sozinha, porque eu tinha uma disposição de horários melhor, e ter entrado num que poderia muito bem ter um laboratório fotográfico, porque tinha uma sala muito escura. Mas foi o mais puro acaso que nos trouxe a este lugar onde residimos. Eu estava indo até um apartamento quando percebi que havia outro, naquela mesma rua, para alugar. A imobiliária ficava na mesma rua, uma imobiliária pequena e que eu nem sabia que existia. Era grande, mobiliado e tinha sacada. Voltei lá com o Charles e com a Carine, mas eles não gostaram. O rapaz nos disse que havia outro, na Cidade Baixa, de 200 metros quadrados e três quartos. Pensamos que seria caríssimo, mas a curiosidade foi mais forte. Rua encantadora, prédio fofinho, corredores agradáveis, porta imponente e o eco de um espaço que dizia que era nosso. UAU! Era a minha expressão para este momento. Era imenso, tinha uma luz de convento, uma aura celestial, sacada, churrasqueira e uma porta secreta. O pessoal da imobiliária nos enrolou por semanas, a burocracia nos torturou de forma pesada, mas estamos aqui.
Depois veio a Camila. Em seu primeiro semestre do curso de artes ela estava passando por vários desafios: o de conciliar os horários com a loja da família (pela qual é imensamente responsável e zelosa), faculdade e as idas e vindas POA -Caxias – Flores da Cunha. Além de carregar muita tralha durante os dias que tinha aula ela dormia num quarto compartilhado com seis pessoas (quando conseguia ficar nesse hotel, que era uma das melhores relações de custo e benefício próximas à faculdade) e não podia praticar violino ou fazer os trabalhos, porque não havia um espaço para isso.
Charles, Carine, Camila, Taila. Às vezes eu surto, às vezes a Carine surta, às vezes o Charles surta. A Camila surta, mas ela é a Poliana. Ela não surta o suficiente pra achar que o mundo vai acabar e querer cortar os pulsos. E surta de uma forma diferente. Mas eu adoro morar com essas pessoas! São a minha família escolhida, e escolhida a dedo! O Charles porque ocupa um lugar especial no meu coração, a Carine porque ela é parceirona pra tudo (até pra indiadas), além de ser o extraterrestre mais legal que eu conheço e a Camila porque nós fizemos muitas promessas juntas pro caso de passarmos no vestibular e nos tornarmos artistas. Além dela ser, claro, movida a impulsos de felicidade elétrica vindos de um lugar que eu não sei onde. Ela tira ânimo do vácuo pra fazer as coisas.
Eu já falei nesse texto sobre a inércia cultural das cidades menores da região Metropolitana de POA e da minha falta de vontade de sair em decorrência disso (e de alguns outros fatores). Mas aqui a gente não tem como não sair. Impossível! E sair com eles é a coisa mais legal do meu dia-a-dia. A gente dança ridículo. E muitas pessoas se espantam. E não estamos nem aí! Muita gente vai às festas tentando passar uma imagem de “eu sou cool”, “eu sou liberal” e na hora de soltar o corpo, de cagar pras dancinhas pré-estabelecidas não conseguem. Estamos esbanjando espontaneidade. De graça. E quem ganha somos nós. Infelizmente a Camila ainda não pôde sair conosco, mas já fingimos uma briga na Casa do Lado. E foi muito divertido! Espero que ela possa fazer festa com a gente em breve, porque tenho certeza que será foda!
Criamos um cosmos. E é lindamente caótico como deveria ser. Ninguém se importa com a louça na pia, se é a vez de fulano lavar ou beltrano. A gente lava sabendo que fulano tem outras preocupações no momento, beltrano não está disposto, a água está fria. Compartilhamos pensamentos, idéias, espaço, comida, rachamos o táxi, as bebidas, o aluguel, as festas. E apresentamos uns aos outros novas músicas, filmes, séries, livros, visões. É lindo viver com essa gente querida. Somos uma fraternidade artística. Sim, porque o Charles também é um artista. Há um artista latente dentro do homem que faz programas, um garoto tímido que se revela genial quando menos se espera. E as gurias são minhas sistas, de coração!
PS.: Este post pode conter generalizações, erros e conclusões tiradas às pressas a respeito de algumas situações. Sobre a região Metropolitana do estado, são conclusões que eu tirei. Nenhum dado é científico ou milimetricamente calculado, são apenas impressões pessoais, meramente ilustrativas. E sendo pessoais, podem ser, por vezes, fantasiosas. Corrija-me e ajude a enriquecê-las.